EASyTRIZ e MAI-TRIZ, Meta Algoritmo da Invenção

EVOLUÇÃO DE APARELHOS DE BARBEAR GILLETTE, DA PROCTER & GAMBLE.

PARTE I – Fundamentos de MAI-TRIZ – Meta-Algoritmo da Invenção

Eng. Prof. Sylvio Silveira Santos
sylvioss@gmail.com

“Be transformed by renewing of your mind.” (*)
Michael Orloff

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Aparelho Gillette Fusion Power Proglider de 5 lâminas, uma evolução do aparelho Mach 3, estudado nesta série de artigos segundo a metodologia EASyTRIZ.

1.1 – O QUE É TRIZ?

TRIZ é uma forma estruturada para inventar novos produtos e serviços, originária da antiga União Soviética e adaptada às necessidades atuais das empresas e de interessados em inovação, colocando a criatividade ao alcance de qualquer pessoa.

Foi criada pelo engenheiro, inventor e escritor Genrich Altshuller, natural de TashkentUzbekistãoUSSR (15/10/1926 – 24/09/1998). A sigla TRIZ se refere à expressão em russo, “Teoriya Resheniya Izobreatatelskikh Zadach” que pode ser traduzida como Teoria Para Resolução de Problemas Criativos.

Um problema é dito “criativo” quando, no desenvolvimento de um produto ou serviço, uma contradição impede que se chegue a uma solução, à qual só pode ocorrer através de sua eliminação mediante uma inovação introduzida no sistema, seja no produto como um todo ou em uma de suas partes.

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Figura 1.1 – Genrich Altshuller, criador da TRIZ, Teoria Para Resolução de Problemas Criativos.

1.2 – EASY TRIZ

A EASyTRIZ é um método estruturado, prático e atual da TRIZ criado pelo Prof. Michael Orloff, do Instituto Técnico de Berlim e fundador da Modern TRIZ Academy, uma empresa global destinada à disseminação educacional de práticas e ideias inovadoras em TRIZ e metodologias afins.
Uma das vantagens deste método sobre outros existentes no aprendizado de TRIZ está em seu poder de análise e síntese, incentivando a expansão da capacidade de raciocínio das pessoas através de pontos de vista atuais e também tornando a TRIZ mais fácil de ser aprendida e ensinada, mostrando de que maneira um artefato pode ser analisado através de procedimentos estruturados originalmente estabelecidos por Altschuller.

O fato de EASyTRIZ ser um método sistemático e estruturado pode causar estranheza às pessoas que, geralmente, estão acostumadas a inovar através de métodos como Brainstorming, Design ThinkingPensamento Lateral de De Bono e outros processos conhecidos para inovar, em que a imaginação é estimulada a atuar livre e criativamente.
Em vez de substituir estes métodos, a EASyTRIZ pode funcionar como um poderoso complemento de qualquer um deles e vice versa!
Vejamos um exemplo básico de aplicação da EASyTRIZ, uma das faces do Meta-Algorítmo da Invenção, MAI-TRIZ.

1.3 – META ALGORÍTMO DA INVENÇÃO, MAI-TRIZ ©

O META ALGORÍTMO DA INVENÇÃO, MAI-TRIZ © é uma padronização simplificada para o uso da TRIZ voltada para o treinamento, cursos e seminários destinados à criação de novos produtos e geração de ideias inovadoras.

Baseado em quatro estágios de ARIZ, Algoritmo Para Resolução de Problemas Criativos, originalmente proposto por Genrich Altshuller, este método consiste de uma abordagem da TRIZ que remonta às origens do método e estabelece etapas sucessivas para sua aplicação, possibilitando obter resultados diretos de uma maneira surpreendentemente eficaz.

O método é extenso e aqui falaremos apenas de uma pequena parte do mesmo, que faz uso dos princípios de aprendizado segundo o Construtivismo, que permite ao educando construir o seu próprio conhecimento por intermédio de alguma ferramenta, no caso o computador, juntamente com os princípios da MAI-TRIZ.

Derivado da Versão mais simples do Algoritmo Para Resolução de Problemas Criativos de Altshuller, ARIZ 56, na forma do Meta-Algoritmo da Invenção, o processo foi revisto pelo Prof. Michael Orloff e tornado simples de compreender, conforme ilustrado abaixo:

Meta Algoritmo Invenção

Figura 1.2 – Meta-Algoritmo da Invenção (MAI) T-R-I-Z e suas 4 etapas. Fonte: ORLOFF, Michael, Modern TRIZ (1), Pg. 58, Principles of TRIZ.

Revisando o que já foi visto em posts anteriores, as quatro letras da sigla TRIZ assinaladas em negrito na figura acima possuem o seguinte significado:

Estagio 1 – T (TENDENCIA) – Identifica deficiências no artefato ou objeto considerado como protótipo, e determina a direção (T – Tendência) de futuras alterações. Todos os sistemas tendem evoluir para sistemas ideais, sejam eles técnicos ou não, em que os custos e o desperdício tendem a zero e os benefícios para o infinito.
Obviamente tais sistemas não existem na prática, mas todos os sistemas técnicos seguem esta tendência.

Estágio 2 – R (REDUÇÃO) – Identifica causas das deficiências e problemas no objeto em estudo na forma de CONTRADIÇÕES. Contradições constituem-se em um aspecto fundamental no uso da TRIZ, e saber identificá-las logo no início consiste de uma etapa importante no uso da metodologia.
A identificação de contradições procura fazer com que os objetivos almejados fiquem explicitados, sendo contingentes após eliminação das contradições.

Estágio 3 – I (INVENÇÃO) – Com base nos instrumentos auxiliares de TRIZ, por exemplo, RECURSOS (que podem ser invisíveis ou não), deve-se partir para a invenção (segundo a evolução de algo existente ou a criação de algo absolutamente novo, com uso de alguns ou um dos 40 PRINCÍPIOS INVENTIVOS de Altshuller);

Estágio 4 – Z (ZOOM) – Desta feita, da mesma forma que podemos alterar o foco ou o zoom em uma câmera, procede-se a uma revisão do resultado a partir várias visões, posições e níveis de escrutínio: visão no nível do objeto ou produto, de sua interface, facilidade e conveniência de uso, resistência, danos ou não que o produto possa causar ao meio ambiente e às pessoas, confrontação com produtos semelhantes, caso existam, custo e facilidade de fabricação, etc.

As quatro letras da palavra TRIZ (Theory of Inventive Problem Solving) compõem a estrutura do método, MAI TRIZ, “Meta Algorithm of Invention – TRIZ”.

O Prof. Michael A. Orloff vem desenvolvendo este método desde 1995, aplicando-o a problemas com vários níveis de dificuldade. Através de seu método, ele se propõe a:

  • Criar novos métodos de ensino da TRIZ, aplicável à Inovação Sistemática e Criatividade, extraindo e reinventando soluções a fim de exemplificar aquelas mais eficientes e modelar o processo de invenção;
  • Desenvolver um formato padronizado e simples para representar resultados de reinvenções: o Meta-Algoritmo da Invenção (MAI TRIZ);
  • Usar como exemplos, da forma mais ampla possível, objetos e ou produtos simples disponíveis (artefatos) com a finalidade de expor os princípios da TRIZ usando a metodologia MAI (Meta Algoritmo da Invenção) em exemplos completos.

Segundo ele, estas recomendações ajudarão a reduzir o nível de complexidade no ensino da TRIZ, garantir a universalidade do conhecimento adquirido, assegurar a credibilidade do método proposto e acelerar a formação de habilidades características da aplicação do mesmo por meio de uma metodologia construtivista através de exemplos simples.

A MAI TRIZ baseia-se em cinco paradigmas radicalmente inovadores:

  1. Paradigma do “Artefato”: É explicitamente postulado que o escopo do aprendizado é ilimitado e inclui quaisquer artefatos, abordando não apenas aspectos técnicos sobre patentes, mas quaisquer fontes de informação oferecendo ideias eficientes e soluções.
    O objetivo do paradigma é examinar a transição de qualquer artefato do estado “do que era” para o estado em que “se tornou”, acompanhado da resolução (eliminação) de contradições sistêmicas que existiam enquanto o artefato estava no estado “do que era”. A metodologia usada envolve essencialmente a reprodução, reconstrução, repetição do processo por meio do qual uma ideia eficiente foi criada originalmente, através de uma comparação entre “construções” do protótipo e artefatos resultantes realizando funções similares.
  2. Reforço da Experiência: Este paradigma realiza e reforça, mediante sua transformação em um axioma metodológico, a experiência disponível, contribuindo para reduzir a complexidade do objeto por meio do exame de alterações inovadoras não apenas no âmbito tecnológico, mas também em campos como marketing e gestão, com aplicações também na área militar ou até mesmo nas áreas artística e educacional.
    Não existem fatores observáveis que restrinjam o uso do paradigma.
  3. Paradigma da “Extração”: é necessário que o método seja estruturado, com a finalidade de identificar modelos de transformação (métodos criativos, inventivos, usados para gerar ideias) e contradições (motivos para se criar alterações, inovações, invenções), usando-o como uma metodologia intensiva e sistemática de ensino da TRIZ.
  4. Paradigma da “Reinvenção”: Organização de um treinamento eficiente baseado na modelagem do ciclo completo da criação (invenção) de um produto que faça uso de uma ideia construtiva, em que o artefato parte do estado “do que era” (artefato protótipo) para o estado em que “se tornou” (artefato resultante), fazendo valer uma visão destinada a acelerar a correta aquisição das habilidades praticas voltadas para a subsequente geração de novas ideias.
  5. Paradigma da Padronização: Na utilização do Meta Algoritmo da Invenção segundo TRIZ, (MAI TRIZ) deve-se procurar padronizar o treinamento, e o processo subsequente de geração de ideias, com base nos quatro estágios do Algoritmo para Resolução de Problemas Criativos (ARIZ), sendo eles:
    Trend (Tendência) –>Reducing (Redução) –> Inventing (Invenção) –> Zooming (Zoom)

Em última análise, esta sequência reproduz, exatamente, estágios dos processos indicados pelas iniciais da palavra TRIZ.

O desenvolvimento de uma metodologia sistemática padronizada e organizada para modelar a transição (transformação) do protótipo de um artefato conhecido do estado em que “era” para um artefato conhecido referente ao que “se tornou” é um passo radical, segundo o autor, no sentido de se garantir a reprodutibilidade do método e a eficiência do treinamento.
Uma vez adotado, o método tenderá a evoluir para um eficiente processo de geração de novas ideias, o qual poderá sempre ser usado para resolver contradições sistêmicas presentes em qualquer artefato conhecido e que necessite ser melhorado.
O artefato protótipo passará então para o estado “é”, em que se encontra no presente.
Deste modo, necessitaremos inventar um principio de construção para o mesmo, o qual irá resultar no estado “necessário”, que deverá possuir as novas propriedades exigidas, livre das propriedades conflitantes presentes no artefato de partida.

1.4 – APLICAÇÃO DO MÉTODO A QUALQUER ARTEFATO: EXTRAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO

Em geral, o método MAI-TRIZ, qualquer que seja o artefato, segue um MODELO DE EXTRAÇÃO e TRANSFORMAÇÃO, como indicado na Figura 1.3 a seguir.

O processo de invenção deste artefato parte da situação de um estado original de ”O que era” para um novo estado “O que é”, mediante a utilização de uma “FUNÇÃO ÚTIL PRINCIPAL” (Main Useful Function, MUF), a qual determina qual é o propósito do artefato.

O MODELO DE EXTRAÇÃO tem por objetivo representar modelos de transformação (Figura 1.3) correspondentes a qualquer artefato (fornecido) usando qualquer fonte de informação (fornecida) descrevendo ideias inovadoras ou objetos.

Dois artefatos assim utilizados podem coexistir simultaneamente, por exemplo, um carro antigo coexiste com um novo modelo da mesma marca, tendo os dois objetos considerados uma existência real.

O primeiro artefato se denomina PROTÓTIPO e o segundo ARTEFATO RESULTANTE.Modelos de transformação

Figura 1.3 – O Método de EXTRAÇÃO (Cf. ORLOFF, Michael, obra citada, Pg. 125)

Existem dois modelos de EXTRAÇÃO:

Extração Tipo 1 – Identificação de todos os modelos de transformação objetiva integralmente ou parcialmente presentes a partir do artefato protótipo e chegando-se ao artefato resultante;

Extração Tipo 2 – Identificação de transformações dominantes necessárias para garantir a transição do artefato protótipo para o artefato resultante, e associado à remoção de certas contradições.

Nos exemplos iniciais do método MAI-TRIZ, podemos citar as seguintes transformações, algumas das quais já foram empregadas em posts anteriores e aqui repetidas:

  • Segmentação
  • Propriedade local
  • Separação
  • Dinamização
  • Cópia
  • Transição para outra dimensão
  • Universalidade
  • Unificação
  • Matrioshka, encapsulamento (Bonecas aninhadas de madeira, originais da Russia)

Na próxima postagem procuraremos destacar estes princípios básicos aplicando-os a um aparelho antigo de barbear da Gillete, passando dele a um mais recente, o aparelho de barbear Mach 3, que opera mediante a integração do corpo do produto, o cabo, que custa barato, com os cartuchos encaixáveis no cabeçote do produto principal (refil) contendo as lâminas que devem ser integradas ao corpo do produto.

O conjunto, ao ser comercializado, entrou no mercado fazendo parte de um modelo de negócios muito estudado, denominado Lock-In pelos estudos da Universidade de St. Gallen na Suíça, em que o produto principal é vendo a baixo preço e seus insumos (consumíveis) a preço elevado, garantindo o lucro do fabricante.

Exemplos de negócios semelhantes são praticados pelo produto Nespresso, da Nestlé (1986), em que as máquinas de fazer o café são baratas mas os cartuchos de café para elas são de preço elevado (saem aproximadamente R$ 400 reais o Kilo! dependendo do tipo do preparado para café); aparelhos dosadores para testes de insulina que são baratos, mas os conjuntos de testes são caros;  impressoras da Hewllet Packard (1984) que são baratas, mas os cartuchos caríssimos. etc.
Estes modelos de negócios, em número de 55, estão publicados no livro “O Navegador de Modelos de Negócios”, de Oliver Gasmann, Karolin Frankenberger & Michaela Clark, cuja leitura recomendamos. Uma separata dos modelos pode ser acessada aqui.

1.5 – REFERÊNCIAS

  1. ORLOFF, Michael, “Modern TRIZ, – A Practical Course with EASyTRIZ Technology”, Ed. Springer, Berlin Heidelberg, 2012.
  2. ORLOFF, Michael, “Inventive Thinking Through TRIZ – A Practical Guide”, Ed. Springer, Berlin Heidelberg, 2010.
  3. ORLOFF, Michael, ABC TRIZ, “Introduction to Creative Design Thinking with Modern TRIZ Modeling”, Ed. Springer, Berlin Heidelberg, 2017
  4. GASSMANN, Oliver, FRANKENBERGER, Karolin & CSIK, Michaela, “O Navegador de Modelos de Negócio – 55 Modelos para Revolucionar Seu Negócio”, Editora Alta Books, 2016 – Rio de Janeiro.

(*) Transformamini renovatione mentis – Nova Vulgata, Apostoli ad Romanos, Epistola Sancti Pauli 12., Ref. (1), Pg. 22.

 

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